Aquela mancha de vinho nunca mais saiu da minha camiseta
Ao contrário de outras marcas que você deixou no meu corpo que logo sanaram
A marca que você deixou em meu âmago ainda espera para ser completada
Como uma meia tatuagem que precisa ser acabada por você
Aquela lembrança, que não deveria significar nada, ecoa ainda em minha mente
Incansável e insistentemente, me impele a voltar aos dias em que acreditei viver
Eu te avisei que não estava nem aí, mas você insistiu em morder minha jugular
E dela extraiu meu sangue amargo depositando levemente seu veneno macabro
Maquiavélica, você me armou uma armadilha
Traiçoeira, você me apunhalou pelas costas
Orgulhosa, você não admitiu ser sobrepujada por mim
Teria de me dominar, me fazer teu troféu, teu escravo
Acreditando-me intocável, baixei a guarda
Deixando-me levar no seu jogo sujo, sofri o golpe
Despreparado, deixei-me envolver pelo seu assédio
E cai nas tuas graças, nas tuas artimanhas
Eu, que já me considerava infalível, insensível
De corpo fechado para estas emoções pueris
E imune a falsas paixões fulminantes e arrebatadoras
Vejo-me apanhado em meio a fantasias juvenis
Arrematado pelo teu toque efêmero de uma noite apenas
Vejo-me enlaçado pelo teu toque de Midas
Vejo-me capturado pelo teu beijo de Judas
Vejo-me enfeitiçado pelo teu canto e tua sedução, sereia-ninfa
Castigo divino, justiça poética
Eu deveria, mas não me arrependo
Porque quis me enfeitiçar